À frente dos demais condenados, logo atrás do carrasco, Aldous viu Marjorie.
Tinham cortado os seus cabelos muito curtos, quase rentes ao couro cabeludo, deixando falhas. Ela estava excessivamente magra e pálida, com profundas olheiras. Quando passou pela arquibancada, ela parou de caminhar e ergueu os olhos cor de violeta.
O conde sentiu o coração disparar. Vendo que ela estacara, o carrasco pegou-a pelo braço e puxou-a, porém, ela firmou-se e não se moveu.
A multidão gritou, extasiada com o espetáculo. O carrasco agarrou-lhe então as correntes que prendiam seus pulsos e puxou-a com brutalidade, obrigando-a a prosseguir. Marjorie, por sua vez, enquanto caminhava lentamente para a pira, mexeu a boca, como se mastigasse algo. Então, uma vertente abundante de sangue começou a brotar de seus lábios semi abertos.
_Oh, Deus! _ exclamou Aldous, levantando-se.
Nisso, o carrasco voltou-se para a condessa, para verificar o que acontecia. Os demais condenados choravam, apavorados com a morte iminente, ao passo que a platéia gritava com euforia, agitando os braços.
O sangue de Marjorie escorria pelo pescoço, inundando as roupas sujas. O carrasco segurou o rosto dela; a condessa lutou, virou-se para olhar Aldous e cospiu um pedaço de carne ensanguentada no chão.
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
O sargento de Tomar
Ao ouvir sua voz, grave e baixa, Liam sentiu o sangue fercer. Encostou-se num pilar, num canto longe da luminosidade dourada que banhava os cômodos da fortaleza de Tomar, e aguardou até que os noviços saíssem. O próprio D.João ia passar por ele, mas Liam pôs uma mão em seu ombro:
_Irmão _ disse ele quase sussurrante _Tenho um assunto extremamente importante para tratar com sua pessoa. É a respeito daquele templário que ordenou que surrássemos até a morte.
_Lembra-se de mim, irmão?
O sargento ameaçou abrir a boca, mas Liam forçou a faca no abdomen do outro, que estremeceu.
_Não faça barulho; não chame atenção. Você irá me levar agora até o pertence de Lake.
_Não vou levá-lo a lugar algum _ afirmou o sargento entre dentes _Pode fazer o que quiser comigo, mas saiba que não sairá vivo daqui. Como tem coragem para tamanha traição contra a Ordem?
_Não estou traindo a Ordem _ respondeu Liam, resoluto _Você é que está.
_Irmão _ disse ele quase sussurrante _Tenho um assunto extremamente importante para tratar com sua pessoa. É a respeito daquele templário que ordenou que surrássemos até a morte.
D.João de Trás-os-Montes voltou-se num sobressalto e Liam encostou a ponta da faca no abdomen do sargento, ocultando a arma debaixo da manga longa do hábito. Ele lhe sorriu e seus olhos cintilavam, ansiosos por vingança, jubilosos por aquele momento.
_Lembra-se de mim, irmão?
O sargento ameaçou abrir a boca, mas Liam forçou a faca no abdomen do outro, que estremeceu.
_Não faça barulho; não chame atenção. Você irá me levar agora até o pertence de Lake.
_Não vou levá-lo a lugar algum _ afirmou o sargento entre dentes _Pode fazer o que quiser comigo, mas saiba que não sairá vivo daqui. Como tem coragem para tamanha traição contra a Ordem?
_Não estou traindo a Ordem _ respondeu Liam, resoluto _Você é que está.
domingo, 21 de novembro de 2010
A rainha sem esperança
Sentada numa poltrona a beira da cama, Isabelle trançava mecanicamente a mecha que se soltara dos cabelos presos. Edward, seu esposo, sentara-se no leito, do lado oposto, segurando uma carta numa mão e uma lamparina em outra. De tempos em tempos, deixava escapar uma risadinha que lhe sacudia os ombros brancos e magros... A rainha nem precisou fazer esforço para saber que decerto, se tratava de uma mensagem de seu amante, o exilado e odioso gascão Piers de Gaveston.
O estômago revirou-se e ela sentia como se murchasse dia a dia. Cansada como estava, preferiu voltar os olhos para o lado, imersa numa angústia tamanha que a fazia desejar jamais ter existido. Que coisa boa devia fazer parte do "nada"...
Com pensamentos amargos, a rainha puxou uma finíssima mecha da trança que havia feito e passou a enrolá-la, sem parar, porém vagarosamente. Os olhos muito azuis, estavam agora apagados pela falta de esperança.
O estômago revirou-se e ela sentia como se murchasse dia a dia. Cansada como estava, preferiu voltar os olhos para o lado, imersa numa angústia tamanha que a fazia desejar jamais ter existido. Que coisa boa devia fazer parte do "nada"...
Com pensamentos amargos, a rainha puxou uma finíssima mecha da trança que havia feito e passou a enrolá-la, sem parar, porém vagarosamente. Os olhos muito azuis, estavam agora apagados pela falta de esperança.
sábado, 20 de novembro de 2010
A pira da Ilha dos Judeus
Aldous esforçava-se para não deixar transparecer como estava abalado, mas notou nos olhos e nas maneiras de Michel Mortimer que ele havia percebido. Aquilo incomodou-o deveras e ele sentiu-se envergonhado, de forma que emudeceu por completo. Em verdade, desejava, acima de tudo, estar sozinho.
Prepararam uma carruagem para o conde, e no começo da tarde, seguiram para a chamada Ilha dos Judeus. Mais outras seis pessoas seriam queimadas naquela tarde, e por isso, haviam montado arquibancadas altas para a nobreza, sendo que a plebe acumulara-se em torno das piras, eufórica, ansiosa por ouvir os gritos agonizantes e por sentir o odor das carnes queimadas dos hereges. Para eles, decerto, não havia diversão melhor que poder ver um organizado espetáculo carregado de dor e agonia, justificado pela salvação da alma dos condenados.
O rei Filipe, o Belo, havia mandado reservar um lugar para Aldous na arquibancada central, numa privilegiada posição, situada bem de frente para as piras. Quando o conde chegou, o monarca já se fazia presente, com o príncipe Luís, o conde Roberto d'Artois, o legista Guillaume de Nogaret, Enguerrand e Marigny e mais outros dignitários e nobres vindos de diversas partes da França. Afinal, não era comum assistir a queima de pessoas pertencentes a alta nobresa francesa.
Aldous subiu os degraus da arquibancada lentamente, sentindo o estômago revirar-se. O soturno Nogaret foi cumprimentá-lo, com os olhos ferozes brilhando de satisfação.
Prepararam uma carruagem para o conde, e no começo da tarde, seguiram para a chamada Ilha dos Judeus. Mais outras seis pessoas seriam queimadas naquela tarde, e por isso, haviam montado arquibancadas altas para a nobreza, sendo que a plebe acumulara-se em torno das piras, eufórica, ansiosa por ouvir os gritos agonizantes e por sentir o odor das carnes queimadas dos hereges. Para eles, decerto, não havia diversão melhor que poder ver um organizado espetáculo carregado de dor e agonia, justificado pela salvação da alma dos condenados.
O rei Filipe, o Belo, havia mandado reservar um lugar para Aldous na arquibancada central, numa privilegiada posição, situada bem de frente para as piras. Quando o conde chegou, o monarca já se fazia presente, com o príncipe Luís, o conde Roberto d'Artois, o legista Guillaume de Nogaret, Enguerrand e Marigny e mais outros dignitários e nobres vindos de diversas partes da França. Afinal, não era comum assistir a queima de pessoas pertencentes a alta nobresa francesa.
Aldous subiu os degraus da arquibancada lentamente, sentindo o estômago revirar-se. O soturno Nogaret foi cumprimentá-lo, com os olhos ferozes brilhando de satisfação.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O traidor
Aldous cerrou os dentes e olhou para Michel com seus olhos verdes cinzentos.
_Na verdade _ disse ele, sem orgulho algum no tom da voz _ eu a roubei dos templários.
Mortimer franziu o cenho e inclinou de leve a cabeça, incrédulo:
_Como?
_Eu a roubei, meu irmão, de um cavaleiro fugitivo. E por pouco, não fui morto por um demônio que serve a Ordem.
Ao ouvir tais palavras de seu senhor, Michel Mortimer benzeu-se com o sinal da cruz. Aldous explicou:
_Lembra-se do preceptor de Auvergne, Imbert Blanke, o homem a quem caçou para que testemunhasse em meu favor?
O gigante louro fez que sim.
_Pois saiba _ prosseguiu o nobre _ que em troca de seu testemunho, ele exigiu a Rainha que a mesma me transmitisse um recado _afirmou, indo sentar-se na beira da cama _Ele pediu-me que fosse levar uma mensagem até um certo cavaleiro que se refugiara na Escócia, e que o ajudasse a cumprir uma missão.
Mortimer meneou a cabeça:
_Mas que confusão! Não entendo!
Aldous baixou os olhos para o chão e balbuciou, sem dar atenção ao que dissera o escudeiro.
_Pobre homem esse Imbert! Serão todos os cavaleiros tão ingênuos assim? Como é que foi achar que poderia confiar numa criatura má e traiçoeira como eu?
_Na verdade _ disse ele, sem orgulho algum no tom da voz _ eu a roubei dos templários.
Mortimer franziu o cenho e inclinou de leve a cabeça, incrédulo:
_Como?
_Eu a roubei, meu irmão, de um cavaleiro fugitivo. E por pouco, não fui morto por um demônio que serve a Ordem.
Ao ouvir tais palavras de seu senhor, Michel Mortimer benzeu-se com o sinal da cruz. Aldous explicou:
_Lembra-se do preceptor de Auvergne, Imbert Blanke, o homem a quem caçou para que testemunhasse em meu favor?
O gigante louro fez que sim.
_Pois saiba _ prosseguiu o nobre _ que em troca de seu testemunho, ele exigiu a Rainha que a mesma me transmitisse um recado _afirmou, indo sentar-se na beira da cama _Ele pediu-me que fosse levar uma mensagem até um certo cavaleiro que se refugiara na Escócia, e que o ajudasse a cumprir uma missão.
Mortimer meneou a cabeça:
_Mas que confusão! Não entendo!
Aldous baixou os olhos para o chão e balbuciou, sem dar atenção ao que dissera o escudeiro.
_Pobre homem esse Imbert! Serão todos os cavaleiros tão ingênuos assim? Como é que foi achar que poderia confiar numa criatura má e traiçoeira como eu?
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Encontro em Paris
Desviando-se das pessoas, Aldous e Anabella deixaram a Galeria Capetista e entraram na carruagem do conde. Quando principiaram a andar, Aldous perguntou:
_O que faz em Paris, Anabella d'Anagni?
Ela sorriu com malícia antes de responder:
_Estou certa de que está pensando mal de mim, Aldous...
_Eu? _ perguntou ele rindo _Não estou pensando nada _ mentiu, pois estava certo de que a bela italiana ainda continuava vendendo seu corpo.
Ao que ela afirmou, altiva:
_Sou uma mulher correta agora. Tenho um trabalho honesto no comércio.
_E que tipo de comércio? _questionou o louro, com acentuado tom de maldade.
O rosto de Anabela mudou, e ela disse com certa ironia:
_Comércio de velas, monsieur. Ajudo a iluminar a vida das pessoas.
Ao ouvir tais palavras, o nobre segurou o riso e meneou a cabeça.
_Que lindo! Fiquei comovido...
Nisso, Anabella chutou-o na canela e esbravejou, em um francês carregado de sotaque italiano:
_É ainda o mesmo grosseiro de anos atrás, Aldous!
_Velhos hábitos nunca nos abandonam... milady.
_O que faz em Paris, Anabella d'Anagni?
Ela sorriu com malícia antes de responder:
_Estou certa de que está pensando mal de mim, Aldous...
_Eu? _ perguntou ele rindo _Não estou pensando nada _ mentiu, pois estava certo de que a bela italiana ainda continuava vendendo seu corpo.
Ao que ela afirmou, altiva:
_Sou uma mulher correta agora. Tenho um trabalho honesto no comércio.
_E que tipo de comércio? _questionou o louro, com acentuado tom de maldade.
O rosto de Anabela mudou, e ela disse com certa ironia:
_Comércio de velas, monsieur. Ajudo a iluminar a vida das pessoas.
Ao ouvir tais palavras, o nobre segurou o riso e meneou a cabeça.
_Que lindo! Fiquei comovido...
Nisso, Anabella chutou-o na canela e esbravejou, em um francês carregado de sotaque italiano:
_É ainda o mesmo grosseiro de anos atrás, Aldous!
_Velhos hábitos nunca nos abandonam... milady.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
A prisão dos templários
No meio da tarde, o soldado retornou aturdido, contando que testemunhara a prisão dos templários pelos guardas do Rei.
Disse ele ter visto o Guarda Selos, Guillaume de Nogaret, acompanhado de um pequeno exército que foi cercar e prender todas as pessoas que estavam dentro dos muros do donjon. Disse o guarda que o Grão-Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay, saiu para conversar com o Guarda Selos e que trocaram os dois algumas palavras, mas que Nogaret, com seu rosto ossudo diabólico, elevara a voz, aparentemente lançando injúrias contra o velho templário. Em seguida, os soldados avançaram por sobre Jacques, desarmado, e o prenderam com correntes. Depois, retornaram para dentro do palácio do Templo, de onde ninguém mais saiu por horas a fio.
Mais tarde, outros soldados levaram templários as dezenas, acorrentados e humilhados, atirados em carroças como se fossem criminosos, para dentro do donjon. O Rei Filipe houvera transformado a fortaleza do Templo em sua própria prisão, levando para lá os piores carrascos que poderia haver: Nogaret e Guillaume de Paris.
_E isso foi tudo o que vi, monsieur _ afirmou o soldado, muito abalado. E quis ele saber _Por que aquilo aconteceu, monsieur? São homens santos!
Aldous desviou o olhar do soldado, sentindo o coração apertar de revolta. Respondeu ele:
_O Rei os acusou de heresia.
Disse ele ter visto o Guarda Selos, Guillaume de Nogaret, acompanhado de um pequeno exército que foi cercar e prender todas as pessoas que estavam dentro dos muros do donjon. Disse o guarda que o Grão-Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay, saiu para conversar com o Guarda Selos e que trocaram os dois algumas palavras, mas que Nogaret, com seu rosto ossudo diabólico, elevara a voz, aparentemente lançando injúrias contra o velho templário. Em seguida, os soldados avançaram por sobre Jacques, desarmado, e o prenderam com correntes. Depois, retornaram para dentro do palácio do Templo, de onde ninguém mais saiu por horas a fio.
Mais tarde, outros soldados levaram templários as dezenas, acorrentados e humilhados, atirados em carroças como se fossem criminosos, para dentro do donjon. O Rei Filipe houvera transformado a fortaleza do Templo em sua própria prisão, levando para lá os piores carrascos que poderia haver: Nogaret e Guillaume de Paris.
_E isso foi tudo o que vi, monsieur _ afirmou o soldado, muito abalado. E quis ele saber _Por que aquilo aconteceu, monsieur? São homens santos!
Aldous desviou o olhar do soldado, sentindo o coração apertar de revolta. Respondeu ele:
_O Rei os acusou de heresia.
sábado, 13 de novembro de 2010
Prólogo - Onde diabos estava Henri Lake?
Onde diabos estava Henri Lake?
Em verdade, eu o imaginava morto àquela altura. Via-o dilacerado por um sabre
sarraceno, o cadáver semi coberto por areia, ressecando sob o sol escaldante do deserto.
Ou ainda,caído numa estrada, com o ventre carcomido por alguma doença, apodrecendo
lentamente enquanto eu o aguardava.
sarraceno, o cadáver semi coberto por areia, ressecando sob o sol escaldante do deserto.
Ou ainda,caído numa estrada, com o ventre carcomido por alguma doença, apodrecendo
lentamente enquanto eu o aguardava.
Também cogitava a possibilidade de termos nos desencontrado. Havíamos combinado de
nos encontrar em Acre, e onde eu estava naquele momento? Seguindo uma rota pela costa,
rumo ao sul, distanciando-me cada vez mais da cidade recém conquistada aos sarracenos, onde
havíamos estabelecido como sendo nosso ponto de encontro.
nos encontrar em Acre, e onde eu estava naquele momento? Seguindo uma rota pela costa,
rumo ao sul, distanciando-me cada vez mais da cidade recém conquistada aos sarracenos, onde
havíamos estabelecido como sendo nosso ponto de encontro.
Talvez, Lake houvera se atrasado em sua viagem, coisa comum de acontecer em se
tratando da grande distância a ser percorrida, e dos inúmeros percalços a que se submetiam
aqueles que tinham coragem e disposição para tão fatídica empreitada. E, nesse caso, não me
encontrando em Acre, poderia supor que morri.
tratando da grande distância a ser percorrida, e dos inúmeros percalços a que se submetiam
aqueles que tinham coragem e disposição para tão fatídica empreitada. E, nesse caso, não me
encontrando em Acre, poderia supor que morri.
Ah, que idéia infeliz a que tivemos, marcando encontro num lugar tão inóspito, onde não
podíamos sequer antever onde e como estaríamos em algumas horas! Mas erro maior havia sido
o de Lake, que já estivera em Ultramar e, por conseguinte, conhecia a fatuidade dos
planos deste lugar...
podíamos sequer antever onde e como estaríamos em algumas horas! Mas erro maior havia sido
o de Lake, que já estivera em Ultramar e, por conseguinte, conhecia a fatuidade dos
planos deste lugar...
Ademais, de nada adiantavam meus lamentos. Percebia, então, que uma idéia principiava
a surgir em minha mente, e não me aprazia a possibilidade de optar por colocá-la em prática.
Isso porque, apesar de minha desconfiança, Ewan ainda era meu irmão.
a surgir em minha mente, e não me aprazia a possibilidade de optar por colocá-la em prática.
Isso porque, apesar de minha desconfiança, Ewan ainda era meu irmão.
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